Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é jornalista, apresentadora e escritora. Mãe da Lara e do Benjamim, nessa entrevista fala sobre como é ser mãe na era digital e seus desafios em relação a maternagem nesse cenário.

1. Quem é a criança do século XXI?

A criança de hoje já nasce mais evoluída. Parece que vem com um chip no qual há um novo padrão de comportamento para se conectar ao mundo e interagir com as pessoas e a natureza. Ela  passa a ideia de que quer  ser protagonista do seu tempo. Assim, não aceita mais cumprir ordens sem questionar a razão. Não quer mais aquela relação hierárquica de submissão, sente-se impelida  a desenvolver suas próprias opiniões mesmo que elas batam de frente com as dos pais. Só funciona na base do diálogo. Quer também ter mais liberdade e autonomia para agir. É uma criança imbuída de uma missão espiritual de transformar o mundo num lugar melhor, por isso já nasce com a predisposição em compreender e admirar a diversidade, a igualdade e o valor do meio ambiente preservado. Para os adultos, relacionar-se com essa nova criança é a grande oportunidade de ouvir mais, aprender e se reciclar nos pensamentos e atitudes. Escrevi uma coleção de livros para ecoalfabetizacao depois que meus filhos gêmeos Lara e Benjamin, então com 4 anos, pediram para eu fechar a torneira porque poderia faltar água no mundo...

Em uma outra situação, perdi a paciência com o Benjamin quando ele ignorou por varias vezes  a uma ordem de largar o IPad para se preparar para dormir. Fui dar uma palmada. Ele encarou fixamente e disse que bater não adiantava. Que eu precisava explicar meus motivos. “É só conversar direito, mamãe”. Fiquei passada.

Uma educação superprotetora ou mesmo controladora pode diminuir a capacidade da criança de desenvolver autonomia e autoconfiança.

Estou agora na luta para que meus filhos enveredem pelo caminho do autoconhecimento praticando Yoga, meditação e a oração de gratidão. Acredito que essa conexão espiritual pode deixá-los mais alinhados com essa natureza intrínseca de viver uma vida focada em valores mais altruístas.

2. Na sua opinião quais foram os impactos na forma de educar após as transformações tecnológicas?

O principal deles vem do acesso fácil às múltiplas possibilidades da internet. Isso faz com que a criança lide com diferentes questões cada vez mais cedo e de forma precoce. Acabam se tornando mais amadurecidas. Então a forma de educar teve que se adaptar a esta criança que está mais bem munida de informações e que enxerga o mundo na mesma velocidade das mudanças tecnológicas. É uma criança naturalmente globalizada, antenada e mais homogênea. Sente-se cidadã do mundo pela possibilidade de interagir com a humanidade, de se ver em meio às diferenças. De ampliar a própria consciência e, nesta linha, de não aceitar uma vida empobrecida, sem propósito.

3. Quais são os seus maiores desafios em relação a maternagem nesse cenário?

Diante deste mundo de possibilidades para meus filhos, comecei a me preocupar com o filtro certo. Porque tudo pode chegar até eles e há coisas deploráveis e nocivas na internet. Desafio de ser mais vigilante e tentar compreender o conteúdo que vai ajudá-los a desenvolver essas novas habilidades, com a adequação necessária ao que eles gostam e necessitam . Outra desafio foi impor limites ao tempo de exposição às telas para que eles possam se desenvolver no mundo real das brincadeiras analógicas e da troca de afeto. Faço piqueniques com amigos no parque, incentivo bicicleta, patins, bola, piscina com amigos, convido amigas em casa, viajo muito com eles. E o principal : olho pra conversar diariamente, interação com a natureza, com o mundo diferente de outras crianças , etc... Do tempo que tenho com eles, foco em qualidade. Estou ali inteiramente. Nestas horas, nem lembro que tenho celular.

4. O mundo evolui exponencialmente a cada ano. De que forma você gostaria que a tecnologia contribuísse para as relações humanas?

Que a tecnologia sirva para conectar as pessoas e derrubar a lente da indiferença entre os povos. Que sirva não só para enxergar o mundo alheio, mas que desperte o engajamento, a luta por um mundo mais igual, mais justo, ambientalmente equilibrado. As redes socais como instrumento de troca e mobilização contra as injustiças.